Um filtro de realismo para os personagens do Flux 3
Um estudo sobre como devolver à pele a verdade fotográfica sem abrir mão da liberdade de criação, construído sobre o meu workflow multicâmera com Flux 2 Klein e Qwen e testado em uma head sheet gerada no Ideogram 4.
OriginalFinal
Deslize a linha para comparar a folha original com a versão final.
A origem do estudo
O Ideogram 4 entrega a pele mais convincente com que já trabalhei. Essa qualidade, porém, vem acompanhada de um limite. Ao ampliar a resolução, o personagem permanecia idêntico: a seed mudava, mudavam a cor dos olhos e o tom do cabelo, mas a arquitetura do rosto seguia intacta. Era sempre a mesma pessoa.
O lançamento do Flux 3 alterou esse cenário. Em menos de sete horas eu já tinha os pesos instalados e as primeiras gerações prontas, e a diferença ficou evidente: com ele é possível deformar, estilizar e conceber feições que não denunciam a origem do modelo. Faltava apenas aquilo que o Ideogram fazia tão bem, a pele.
Até então, alcançar o 4K exigia passar pelo SeedVR2. Ele eleva a qualidade com consistência até cerca de 2K, mas, partindo de uma base de 1024 px, não sustenta o mesmo nível, e em nenhum caso cria textura de pele. Com o Flux 3 gerando nativamente em 4K, o realismo deixa de ser uma questão de resolução e passa a ser uma etapa de acabamento: um filtro.
O desafio foi construir esse filtro sobre o workflow que eu já utilizava para detalhamento e multicâmera, com Flux 2 Klein e Qwen. A folha dos testes a seguir foi gerada no Ideogram 4.
Ideogram 4 e Flux 3, frente a frente
Dois modelos de pesos abertos, com vocações distintas. Um resumo do que cada fabricante divulga e do que observei na prática.
Ideogram 4
Lançado em junho de 2026
Arquitetura
Transformer de difusão de 9,3 bilhões de parâmetros, treinado do zero
Treinamento
Legendas estruturadas em JSON que descrevem cada elemento da imagem, lidas por um encoder de visão e linguagem. A base, segundo a fabricante e parceiros, reúne fotorrealismo, ilustração, tipografia e design de cartaz
Vocação
Texto na imagem, layout e uma pele de qualidade fotográfica
Flux 3 Image Klein
Lançado em 15 de outubro de 2026
Arquitetura
5,6 bilhões de parâmetros, em versão base e destilada
Recursos
4K nativo, edição precisa delimitada por caixas e até dez imagens de referência
Vocação
Liberdade de estilo e de feições, rodando em placas de vídeo domésticas
O que observei no Ideogram 4. Cada modo do workflow, turbo, default e quality, tende a um tipo de rosto próprio, e o quality, de maior resolução, converge para um rosto recorrente. Minha leitura é que isso reflete a forma como os pesos abertos foram treinados em diferentes resoluções. A Ideogram não detalha esse processo, então trato como hipótese de uso, não como fato técnico.
O cenário agora. O Ideogram 4.5 segue disponível apenas como modelo hospedado, e a abertura dos seus pesos é aguardada. Enquanto isso, o Flux 3 acaba de chegar, e os primeiros testes da comunidade já mostram body sheets funcionando.
Folha de entrada
Head sheet com três vistas (frente, três-quartos e perfil), gerada no Ideogram 4
Modelo
flux-2-klein-9b, com o VAE do Flux 2
Text encoder
qwen_3_8b_fp8mixed pelo nó TextEncodeQwenImageEditPlus, combinação que adoto há tempo com o Klein
Image Tile e Image Untile (ComfyUI Essentials), Power Lora Loader (rgthree), Image Save (WAS)
1
Quando a folha se multiplicava
A primeira versão do workflow recebia três vistas e devolvia quatro: surgia uma cabeça excedente, cortada na margem, e os painéis perdiam a proporção. O realismo, que era o propósito, mal se manifestava.
A leitura do grafo e dos metadados revelou três causas sobrepostas. A folha entrava inteira, com cerca de sete megapixels, muito além da faixa em que o Klein trabalha com conforto, e o modelo passava a replicar conteúdo para preencher o espaço. O prompt pedia para preservar o estilo original, justamente o oposto do que se buscava. E dois nós herdados do template do Qwen-Image-Edit interferiam no ritmo da geração; desativá-los foi o primeiro ajuste.
Primeira saída. Uma quarta vista inventada e painéis desiguais.
2
Separar para preservar
A solução foi tratar cada vista como uma imagem independente. Comecei por um pequeno script em Python que identifica as divisões reais entre os painéis e recorta cada vista sem perda, organizando o resultado em pastas, automaticamente, a cada folha nova.
Em seguida, levei o mesmo princípio para dentro do ComfyUI. O Image Tile divide a folha, cada vista recebe o tratamento do Klein e o Image Untile reconstrói o conjunto já na nova resolução. O script permanece como recurso para folhas de painéis irregulares.
Na divisão e na remontagem, a sobreposição fica em zero, para que nenhuma vista invada a vizinha.
3
Cada palavra é um traço
Esta foi a descoberta central. Um prompt de linguagem publicitária, com luz de recorte, contraste cinematográfico e estética de editorial, trouxe sombras duras e pele oleosa. Pedir que a barba fosse mantida fez a barba crescer. Pedir pele lisa transformou o personagem em boneco.
Num modelo sem prompt negativo, não existe instrução neutra: tudo o que é nomeado tende a ser desenhado. Até a palavra “marcas” se convertia em manchas.
Linguagem publicitária. Luz dura, brilho e contraste em excesso.“Manter a barba”. Uma barba que não existia.“Pele lisa e limpa”. Aparência de boneco, sem a sombra da barba.
Um prompt que apenas preserva
A versão final não descreve pele, luz, idade ou gênero, e por isso serve a qualquer personagem, da criança ao idoso. Ela enumera o que deve permanecer e pede somente mais definição para o que já existe.
Upscale this photograph of the same person. Keep everything exactly as it is: face, identity, age, expression, skin, hair, eyes, clothing, pose, camera angle, framing, lighting, exposure, colors and background. The only change is higher resolution and sharper definition of the details already present: individual hair strands, eyebrows and eyelashes, the iris pattern, and the fabric weave. A faithful, sharp, high-resolution copy of the original photograph.
O campo negativo permanece vazio.
4
A LoRA como âncora de identidade
Com o mesmo prompt e a mesma seed, comparei o resultado com e sem LoRA. Sem ela, o Klein preenchia a ausência de detalhe com invenções: acne na bochecha, uma pinta na maçã do rosto. Com as LoRAs de realismo e de detalhe, ele refina o que já está lá e respeita cada marca da original.
A passagem da Realism Slider da v1 para a v2 tornou o perfil ainda mais fiel, com menos pontilhado e menos vermelhidão.
Original.Sem LoRA. Marcas inventadas.Com LoRA. As mesmas marcas, com mais definição.
5
Fidelidade ou detalhe
O denoise determina o quanto o modelo redesenha. Em 0,4, a imagem retorna quase intocada, com grão e tudo. Em 0,7, íris, cílios e cabelo ganham definição sem que o rosto se altere. Em 1,0, o detalhe atinge o máximo, ao custo de um leve retoque: uma linha na testa, uma sombra sob os olhos.
Optei por 1,0. Esta folha será vista sozinha, sem a original ao lado, e a riqueza de detalhe pesou mais do que a fidelidade absoluta. Quando a ficha precisa ser uma cópia exata, 0,7 é o ponto de equilíbrio.
Original.0,4. Quase nenhuma mudança.0,7. Mais definição, rosto preservado.1,0. Detalhe máximo, leve retoque.
O que fica deste processo
A resolução de entrada precede qualquer ajuste: além da faixa do modelo, ele duplica em vez de detalhar.
Separar as vistas e remontá-las depois preserva a integridade da folha.
Em modelos sem prompt negativo, cada palavra é um traço. Para refinar sem alterar, o prompt apenas declara o que deve permanecer.
A LoRA certa ancora a identidade; sem ela, o modelo inventa para preencher.
O denoise é o verdadeiro controle entre fidelidade e detalhe, e a escolha depende de onde a imagem será vista.
A ficha é uma referência de identidade: luz neutra na model sheet, dramaticidade reservada às cenas.